Olhos confusos
vacilam.
Constroem o real
a partir de reflexos.
Mar;
Fogueiras;
Estrelas;
Bochechas;
Pés descalços;
Lâmpadas;
Lua;
Dourado de Crepúsculo;
Nuvens;
Relva;
Tijolos;
Botões de Girassol.
Portal incerto.
Decerto questiona
o mundo soberbo.
Caos:
As danças do ar
de encontro ao ser.
Para que a sóbria Razão,
quando se tem
a embriagada Visão?
O presente eterno
que cimenta o sentido
de passado e futuro.
Saltos diversos do globo que filtra a alma.
Restam cores
em movimento:
Caos.
domingo, 14 de dezembro de 2008
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Coros e cantos
E enquanto houver prosa, existiremos. Cantaremos pelo vinho, pelos amores, pelas saudades...pelo sol refletido nas águas e pelos tons quentes de fim de tarde. Dançaremos ao redor das fogueiras de sensações. Abraçaremos o vento que revigora a alma. Beijaremos lábios de arrepios e encontros. Escutaremos os estalos da música que roda em nossas mentes. Enxergaremos redemoinhos que percorrem o corpo. Dormiremos em macios recantos de torpor.
As notas vibram e o universo gira com suas cores, sons, cheiros, gostos, experiências. E a prosa permanece. Em folhas amareladas e gastas, sonhando e temendo pelo futuro e relembrando o passado de melancolias e felicidades.
Percorre...percorre...E os coros continuam, de pessoas envoltas por problemas e prazeres. E a lua lá está, sempre observando atenta o ritmo de nossos tambores, os sorrisos e os movimentos libertários. Não importa começo ou fim. A expressão lá sempre está, não morre. Caminha sobre gramados, terra, cimento, areia, barro. Carregando consigo o respirar, e os suspiros de satisfação.
As notas vibram e o universo gira com suas cores, sons, cheiros, gostos, experiências. E a prosa permanece. Em folhas amareladas e gastas, sonhando e temendo pelo futuro e relembrando o passado de melancolias e felicidades.
Percorre...percorre...E os coros continuam, de pessoas envoltas por problemas e prazeres. E a lua lá está, sempre observando atenta o ritmo de nossos tambores, os sorrisos e os movimentos libertários. Não importa começo ou fim. A expressão lá sempre está, não morre. Caminha sobre gramados, terra, cimento, areia, barro. Carregando consigo o respirar, e os suspiros de satisfação.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Realização
Os tempos cessaram.
O calor agora aquietou-se
nas entrelinhas do passado,
de corações ávidos e repletos de realização
que se transportou às profundezas da arca da mente.
Quem disser que no exterior
restaram apenas as lágrimas,
não compreende que o que passou
é belo e transcendente
justamente porque é passado.
A afinação de um momento
dura enquanto é eterna.
Mas quando chega o passado,
os instantes megulham no mar das sensações,
afundam,
Encontrando-se com seus semelhantes
de outras significações mas de valor igualmente grandioso.
Transparece uma certeza:
recuperar é impossível
e reconstruir é complexo.
Lamentações são improdutivas.
Carecem de caráter criativo.
Prendem-se a concepções de um instante que já mergulhou.
A beleza do que passou
já não é mais momento,
e sim certeza.
Certeza de realização.
O calor agora aquietou-se
nas entrelinhas do passado,
de corações ávidos e repletos de realização
que se transportou às profundezas da arca da mente.
Quem disser que no exterior
restaram apenas as lágrimas,
não compreende que o que passou
é belo e transcendente
justamente porque é passado.
A afinação de um momento
dura enquanto é eterna.
Mas quando chega o passado,
os instantes megulham no mar das sensações,
afundam,
Encontrando-se com seus semelhantes
de outras significações mas de valor igualmente grandioso.
Transparece uma certeza:
recuperar é impossível
e reconstruir é complexo.
Lamentações são improdutivas.
Carecem de caráter criativo.
Prendem-se a concepções de um instante que já mergulhou.
A beleza do que passou
já não é mais momento,
e sim certeza.
Certeza de realização.
Veracidade
Um mergulho profundo na consciência
o despertou de pesadelos terríveis:
encontrara a veracidade proporcionada pela experiência.
-Fuja! Fuja! - gritava o servo acorrentado
-Tua libertação encontra-se nos atos que não observas.
A beleza e plasticidade de teus devaneios foram massacradas pela efemeridade e pragmatismo dos homens engravatados.
-Teus olhos não enganam:
És aquele que questiona a banalidade e a sobriedade da existência patética.
Fuja enquanto há tempo!
Tua consciência ainda clama pela chama da síntese.
-Tu és o amigo dos sonhos e canta pela simplicidade da grande viagem.
És o companheiro do ar, o elixir do processo.
Encontre-se com os sentidos e não chore pelos absurdos do passado,
apenas sinta-os.
o despertou de pesadelos terríveis:
encontrara a veracidade proporcionada pela experiência.
-Fuja! Fuja! - gritava o servo acorrentado
-Tua libertação encontra-se nos atos que não observas.
A beleza e plasticidade de teus devaneios foram massacradas pela efemeridade e pragmatismo dos homens engravatados.
-Teus olhos não enganam:
És aquele que questiona a banalidade e a sobriedade da existência patética.
Fuja enquanto há tempo!
Tua consciência ainda clama pela chama da síntese.
-Tu és o amigo dos sonhos e canta pela simplicidade da grande viagem.
És o companheiro do ar, o elixir do processo.
Encontre-se com os sentidos e não chore pelos absurdos do passado,
apenas sinta-os.
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
"Bitches Brew" de Miles Davis: A dança dos Faraós
Inquietação. Uma boa palavra para Miles Davis.
Este semeador do processo criativo percorreu sua vida musical pela rota da inquietação. Aderindo e rompendo com linhas estilísticas por todo esse caminho, Miles produziu preciosidades instrumentais e um nível de consciência artística extraordinário e muitas vezes incompreendido pela sociedade não ciente do confronto e da movimentação. É, pura e simplesmente, um homem de vanguarda, que por todas as vertentes do jazz pelas quais passou, desde o bebop, passando pelo cool e chegando ao fusion, contribuiu com tudo que podia até um momento de ruptura e assimilação de uma nova realidade.
O desenvolvimento artístico deste rapaz de St. Louis passou por uma longa caminhada de incorporação de diversos elementos musicais, um movimento dialético que o transformou em um verdadeiro maestro e incomparável garimpador de gênios do jazz. Miles angariou boa parte dos grandes talentos da música instrumental para tocar com ele em suas muitas bandas, revelando nomes como Tony Williams, Herbie Hancock e outros. Músicos que se tornariam todos expoentes da década de 70 com suas próprias idéias, mas sempre tendo como referência o processo construído juntamente com o trompetista.
A genialidade atingiu uma apoteose em 1969, com o lançamento do disco duplo "Bitches Brew". Construído por uma banda de músicos fenomenais, o álbum surgiu como uma das maiores inovações da história do jazz, especialmente por produzir o som com duas baterias, dois baixos (um acústico e um elétrico), congas, percussão diversa, cuicas, guitarra, sopros, órgão, dois pianos elétricos e lógico, o trompete de Miles. Representa um acumulado repleto de cenas, violência, amor, criação, pessoas e coletivo.
Logo no início os instrumentos conversam: baterias e baixos na retaguarda, enquanto teclados e órgão interagem com a guitarra do inspirado John McLaughlin, mesclando frases. De fundo, um grave poderoso, com Bennie Maupin tocando um "Bass clarinet". Conforme o andamento da música, percebemos que todos da banda parecem seguir seus instintos comunicativos e a sessão flui continuamente como uma festa. A entrada do improviso de Miles é colossal, um agudo que se assemelha a um grito por liberdade de todos os padrões existentes no jazz: o encaixe das notas, vibratos e fraseados com a cozinha (baixos e baterias) e os teclados é simplesmente perfeito.
Logo em seguida, enquanto os bateristas Jack DeJohnette e Lenny White e os baixistas Dave Holland e Harvey Brooks seguram o groove, Maupin começa seu solo nos graves, quebrando o som agudo e estridente de Miles. McLaughlin fraseia continua e virtuosamente no fundo, enquanto a percussão de Don Alias e Jumma Santos fornece um ritmo africano ao andamento.
O começo do disco é como uma vibração que baixou sobre os músicos e os levou na empreitada do improviso, proporcionando um verdadeiro debate. Os solos de Miles apresentam-se com uma sensibilidade incrível, e a capacidade de fazer uma combinação de notas encaixadas em um contexto que necessita delas. No sax soprano, Wayne Shorter faz solos desconcertantes, que progridem do grave ao agudo em alguns segundos, proporcionando um sobe e desce no fraseado.
A grande sabedoria de solar está em como trabalhar com os silêncios, como configurá-los com os sons diversos. E é através do domínio desta técnica que "Bitches Brew" figura como uma obra prima.
A banda está a todo vapor, e a música toma uma proporção que parece indicar que tudo caminha sozinho em um outro plano de entendimento. Acordes soltos e distorcidos de guitarra pulam frente aos ouvidos. As duas baterias e os dois baixos proporcionam combinações e encaixes, e os teclados (Joe Zawinul, Chick Corea e Larry Young) completam o serviço de "carregar" a música em uma interação fabulosa, que enxerga "brechas" onde podem ser colocados acordes e notas. Metais e congas aparecem aos poucos, agregando-se ao amontoado da levada musical. A composição possibilita o aguçamento perceptivo: a diversidade de instrumentos é enorme, e no entanto nos permite enxergá-los todos em suas funções específicas.
Os tempos do disco são peculiares e a variedade de sons faz enxergar cores. A interação entre graves (baixos e bass clarinet) é perfeita, juntamente com o surgimento de McLaughlin através de seus acordes dispersos, "ghost notes" e frases virtuosas e o entedimento magnífico entre DeJohnette e White. Miles é o cume da composição: quando tudo caminha tranquilo, ele entra, parecendo alguém falando alto em uma conversa de bar e dando argumentos excelentes que fazem todos prestarem atenção.
O grande trunfo do disco é a conexão. Todos estão cientes do que está acontecendo e se ouvirmos atentamente, percebemos a voz de Miles ao fundo no estúdio aparecendo as vezes para reger a grande sinfonia da improvisação. É esta sensibilidade extrema que dá a noção a todos de quando devem tocar mais alto ou mais baixo, um "feeling" que parece atingir a banda inteira ao mesmo tempo e igualmente, difundindo a sensação de quando devem diminuir a pegada para deixar o solista se expressar, falar suas idéias. Chegamos então na expressão que resume "Bitches Brew": sincronicidade das almas. Os eventuais retornos ao tema da música quebram o andamento e a sincronia da improvisação, e a partir disso nasce um outro desenvolvimento de combinações, com novas possibilidades construtivas. É uma energia musical que promove o entendimento.
Miles Davis age como um mago que aponta para os instrumentistas e indica o que devem fazer, como e quando. Dessa maneira, ele promove o andamento ideal para que seus solos quebrem qualquer expectativa, preconceito e idéias passadas.
Através deste encontro único da improvisação jazzistica com a música elétrica, surge uma mescla de sonoridades diversas e um corpo musical consistente, mas que também quebra todos os padrões que já haviam existido. Trata-se, realmente, de algo singular, uma música que se retroalimenta, fornece as bases de seu desenvolvimento no decorrer do próprio desenvolvimento.
"Bitches Brew" representa a junção da importância do solista com a importância do conjunto, provando que o todo não é a soma das partes. O disco não é uma soma de faixas, é uma obra. Existe uma vibração maior que entra no processo, puxando as funções de cada músico e ligando-as, proporcionando uma apoteose de sons. O som é um túnel sem fim, uma caminhada sem paradas, um círculo psicodélico de cores e estímulos sinestésicos: você flutua por esse túnel, despreocupado com começo e fim, pois esta música te faz entender a noção de processo e de como coisas (solos, frases, batidas, etc.) nascem, morrem e se recombinam em um andamento perpétuo enquanto dura. Trata-se de uma obra dedicada ao caos da existência humana com seus eventuais padrões, possibilitando surpresas e a quebra da rotina.
Miles e sua banda abrem as portas da percepção para produzir este álbum, conversando com seus sonhos no decorrer da música e permitindo a manifestação de seus subconscientes. De todos os lados percebemos estímulos auditivos intensos, com as vozes dos instrumentos saltando, e a criação de "moods" nunca antes experimentados, em uma (con)fusão de ritmos diversos: jazz, rock, a batida característica da música negra e a percussão de origem africana.
Temos discos estupendos nas fases pré e pós "Bitches Brew", como "Filles de Kilimanjaro", "In a Silent Way", "Miles in the Sky", "Kind of Blue", "Live Evil" e "A Tribute to Jack Johnson", mas que não tem a mesma propriedade. A obra figura como o grande expoente da genialidade de um mestre em toda a sua carreira. É, por definição, uma viagem sensorial.
"Bitches Brew" (1969)
Disco 1:
1-Pharaoh's Dance 20:05
2-Bitches Brew 26:58
Disco 2:
1-Spanish Key 17:32
2-John McLaughlin 4:22
3-Miles Runs The Voodoo Down 14:01
4-Sanctuary 10:56
5-Feio 11:49
Este semeador do processo criativo percorreu sua vida musical pela rota da inquietação. Aderindo e rompendo com linhas estilísticas por todo esse caminho, Miles produziu preciosidades instrumentais e um nível de consciência artística extraordinário e muitas vezes incompreendido pela sociedade não ciente do confronto e da movimentação. É, pura e simplesmente, um homem de vanguarda, que por todas as vertentes do jazz pelas quais passou, desde o bebop, passando pelo cool e chegando ao fusion, contribuiu com tudo que podia até um momento de ruptura e assimilação de uma nova realidade.
O desenvolvimento artístico deste rapaz de St. Louis passou por uma longa caminhada de incorporação de diversos elementos musicais, um movimento dialético que o transformou em um verdadeiro maestro e incomparável garimpador de gênios do jazz. Miles angariou boa parte dos grandes talentos da música instrumental para tocar com ele em suas muitas bandas, revelando nomes como Tony Williams, Herbie Hancock e outros. Músicos que se tornariam todos expoentes da década de 70 com suas próprias idéias, mas sempre tendo como referência o processo construído juntamente com o trompetista.
A genialidade atingiu uma apoteose em 1969, com o lançamento do disco duplo "Bitches Brew". Construído por uma banda de músicos fenomenais, o álbum surgiu como uma das maiores inovações da história do jazz, especialmente por produzir o som com duas baterias, dois baixos (um acústico e um elétrico), congas, percussão diversa, cuicas, guitarra, sopros, órgão, dois pianos elétricos e lógico, o trompete de Miles. Representa um acumulado repleto de cenas, violência, amor, criação, pessoas e coletivo.
Logo no início os instrumentos conversam: baterias e baixos na retaguarda, enquanto teclados e órgão interagem com a guitarra do inspirado John McLaughlin, mesclando frases. De fundo, um grave poderoso, com Bennie Maupin tocando um "Bass clarinet". Conforme o andamento da música, percebemos que todos da banda parecem seguir seus instintos comunicativos e a sessão flui continuamente como uma festa. A entrada do improviso de Miles é colossal, um agudo que se assemelha a um grito por liberdade de todos os padrões existentes no jazz: o encaixe das notas, vibratos e fraseados com a cozinha (baixos e baterias) e os teclados é simplesmente perfeito.
Logo em seguida, enquanto os bateristas Jack DeJohnette e Lenny White e os baixistas Dave Holland e Harvey Brooks seguram o groove, Maupin começa seu solo nos graves, quebrando o som agudo e estridente de Miles. McLaughlin fraseia continua e virtuosamente no fundo, enquanto a percussão de Don Alias e Jumma Santos fornece um ritmo africano ao andamento.
O começo do disco é como uma vibração que baixou sobre os músicos e os levou na empreitada do improviso, proporcionando um verdadeiro debate. Os solos de Miles apresentam-se com uma sensibilidade incrível, e a capacidade de fazer uma combinação de notas encaixadas em um contexto que necessita delas. No sax soprano, Wayne Shorter faz solos desconcertantes, que progridem do grave ao agudo em alguns segundos, proporcionando um sobe e desce no fraseado.
A grande sabedoria de solar está em como trabalhar com os silêncios, como configurá-los com os sons diversos. E é através do domínio desta técnica que "Bitches Brew" figura como uma obra prima.
A banda está a todo vapor, e a música toma uma proporção que parece indicar que tudo caminha sozinho em um outro plano de entendimento. Acordes soltos e distorcidos de guitarra pulam frente aos ouvidos. As duas baterias e os dois baixos proporcionam combinações e encaixes, e os teclados (Joe Zawinul, Chick Corea e Larry Young) completam o serviço de "carregar" a música em uma interação fabulosa, que enxerga "brechas" onde podem ser colocados acordes e notas. Metais e congas aparecem aos poucos, agregando-se ao amontoado da levada musical. A composição possibilita o aguçamento perceptivo: a diversidade de instrumentos é enorme, e no entanto nos permite enxergá-los todos em suas funções específicas.
Os tempos do disco são peculiares e a variedade de sons faz enxergar cores. A interação entre graves (baixos e bass clarinet) é perfeita, juntamente com o surgimento de McLaughlin através de seus acordes dispersos, "ghost notes" e frases virtuosas e o entedimento magnífico entre DeJohnette e White. Miles é o cume da composição: quando tudo caminha tranquilo, ele entra, parecendo alguém falando alto em uma conversa de bar e dando argumentos excelentes que fazem todos prestarem atenção.
O grande trunfo do disco é a conexão. Todos estão cientes do que está acontecendo e se ouvirmos atentamente, percebemos a voz de Miles ao fundo no estúdio aparecendo as vezes para reger a grande sinfonia da improvisação. É esta sensibilidade extrema que dá a noção a todos de quando devem tocar mais alto ou mais baixo, um "feeling" que parece atingir a banda inteira ao mesmo tempo e igualmente, difundindo a sensação de quando devem diminuir a pegada para deixar o solista se expressar, falar suas idéias. Chegamos então na expressão que resume "Bitches Brew": sincronicidade das almas. Os eventuais retornos ao tema da música quebram o andamento e a sincronia da improvisação, e a partir disso nasce um outro desenvolvimento de combinações, com novas possibilidades construtivas. É uma energia musical que promove o entendimento.
Miles Davis age como um mago que aponta para os instrumentistas e indica o que devem fazer, como e quando. Dessa maneira, ele promove o andamento ideal para que seus solos quebrem qualquer expectativa, preconceito e idéias passadas.
Através deste encontro único da improvisação jazzistica com a música elétrica, surge uma mescla de sonoridades diversas e um corpo musical consistente, mas que também quebra todos os padrões que já haviam existido. Trata-se, realmente, de algo singular, uma música que se retroalimenta, fornece as bases de seu desenvolvimento no decorrer do próprio desenvolvimento.
"Bitches Brew" representa a junção da importância do solista com a importância do conjunto, provando que o todo não é a soma das partes. O disco não é uma soma de faixas, é uma obra. Existe uma vibração maior que entra no processo, puxando as funções de cada músico e ligando-as, proporcionando uma apoteose de sons. O som é um túnel sem fim, uma caminhada sem paradas, um círculo psicodélico de cores e estímulos sinestésicos: você flutua por esse túnel, despreocupado com começo e fim, pois esta música te faz entender a noção de processo e de como coisas (solos, frases, batidas, etc.) nascem, morrem e se recombinam em um andamento perpétuo enquanto dura. Trata-se de uma obra dedicada ao caos da existência humana com seus eventuais padrões, possibilitando surpresas e a quebra da rotina.
Miles e sua banda abrem as portas da percepção para produzir este álbum, conversando com seus sonhos no decorrer da música e permitindo a manifestação de seus subconscientes. De todos os lados percebemos estímulos auditivos intensos, com as vozes dos instrumentos saltando, e a criação de "moods" nunca antes experimentados, em uma (con)fusão de ritmos diversos: jazz, rock, a batida característica da música negra e a percussão de origem africana.
Temos discos estupendos nas fases pré e pós "Bitches Brew", como "Filles de Kilimanjaro", "In a Silent Way", "Miles in the Sky", "Kind of Blue", "Live Evil" e "A Tribute to Jack Johnson", mas que não tem a mesma propriedade. A obra figura como o grande expoente da genialidade de um mestre em toda a sua carreira. É, por definição, uma viagem sensorial.
"Bitches Brew" (1969)
Disco 1:1-Pharaoh's Dance 20:05
2-Bitches Brew 26:58
Disco 2:
1-Spanish Key 17:32
2-John McLaughlin 4:22
3-Miles Runs The Voodoo Down 14:01
4-Sanctuary 10:56
5-Feio 11:49
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Noite
A noite na cidade proporciona uma assimilação diferente da realidade que nos cerca. Nossos sentidos parecem cercados por uma atmosfera nebulosa, uma sombra constante que incita a dúvida e transforma a percepção em fonte de serenidade e questionamentos.
Parece paradoxal dizer isso, mas estes são processos paralelos desencadeados pelo ambiente noturno.
A claridade do dia parece nos passar algum tipo de certeza, e nossa experiência aparenta dinâmica. A noite, por sua vez, é algo difuso mas também tranquilizador. É um mar de incertezas, mas que nos assegura a essência de nossos sentidos. Basta observar calmamente pela janela durante uma madrugada, para constatar que a escuridão repleta de luzes artificiais tem cheiro, coisa que o dia não tem. Um cheiro fresco e agradável, seja em uma noite de verão ou em uma noite de inverno.
O encontro do rosto com o ar úmido liberta e embebeda, de forma que planamos pela existência e fugimos da materialidade que nos cerca.
A noite na cidade demonstra aquele que é o princípio da existência: o fluxo contínuo de processos. Processos que exalam vida, questionamentos, sofrimento e prazer.
O ambiente noturno cosmopolita proporciona a descoberta da essência de cada um através da experiência que está sendo vivenciada. A escuridão proporciona um ambiente acolhedor para podermos expressar nosso "eu", e é o momento em que somos tomados por questionamentos e por um desejo de pacificação do espírito. É, por assim dizer, o momento em que nos identificamos como seres humanos, pois é o instante em que as sombras e dúvidas da razão estão estampadas no ambiente externo a nós, algo como um espelho do andamento de nossa alma.
A arte faz mais sentido a noite, assim como as luzes e todas as construções humanas. Percebemos a enormidade da humanidade andando de mãos dadas com os seus aspectos mais animalescos e imundos. Isso tudo circula pela sombra da noite, disponível para o observador atento.
Nada é mais gratificante do que observar o anoitecer de uma cidade movimentada marchando frente aos seus sentidos: o aparecimento das luzes, a pressa das pessoas, os risos, o cansaço, os questionamentos, a alegria e as vozes. Enfim, a vida.
Todo anoitecer representa o renascimento da natureza humana.
Parece paradoxal dizer isso, mas estes são processos paralelos desencadeados pelo ambiente noturno.
A claridade do dia parece nos passar algum tipo de certeza, e nossa experiência aparenta dinâmica. A noite, por sua vez, é algo difuso mas também tranquilizador. É um mar de incertezas, mas que nos assegura a essência de nossos sentidos. Basta observar calmamente pela janela durante uma madrugada, para constatar que a escuridão repleta de luzes artificiais tem cheiro, coisa que o dia não tem. Um cheiro fresco e agradável, seja em uma noite de verão ou em uma noite de inverno.
O encontro do rosto com o ar úmido liberta e embebeda, de forma que planamos pela existência e fugimos da materialidade que nos cerca.
A noite na cidade demonstra aquele que é o princípio da existência: o fluxo contínuo de processos. Processos que exalam vida, questionamentos, sofrimento e prazer.
O ambiente noturno cosmopolita proporciona a descoberta da essência de cada um através da experiência que está sendo vivenciada. A escuridão proporciona um ambiente acolhedor para podermos expressar nosso "eu", e é o momento em que somos tomados por questionamentos e por um desejo de pacificação do espírito. É, por assim dizer, o momento em que nos identificamos como seres humanos, pois é o instante em que as sombras e dúvidas da razão estão estampadas no ambiente externo a nós, algo como um espelho do andamento de nossa alma.
A arte faz mais sentido a noite, assim como as luzes e todas as construções humanas. Percebemos a enormidade da humanidade andando de mãos dadas com os seus aspectos mais animalescos e imundos. Isso tudo circula pela sombra da noite, disponível para o observador atento.
Nada é mais gratificante do que observar o anoitecer de uma cidade movimentada marchando frente aos seus sentidos: o aparecimento das luzes, a pressa das pessoas, os risos, o cansaço, os questionamentos, a alegria e as vozes. Enfim, a vida.
Todo anoitecer representa o renascimento da natureza humana.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Conflito
Digitava sem parar. Porém, as palavras pareciam sem sentido algum. Naquele momento representavam apenas uma junção confusa de letras.
Socou a mesa e levantou-se. Dirigiu-se à cozinha, em busca de algo para molhar a garganta e que talvez lhe desse alguma inspiração. Com uma garrafa de vinho na mão, andou até a janela e debruçou-se no parapeito, observando luzes e vivências. Um cheiro fresco penetrou em seu ser, juntamente com o barulho das vibrações da cidade. A escuridão repleta de focos de existência lhe trazia serenidade. Cogitou o que é um sentido e supôs que a essência depende do observador.
Sentou-se novamente e focou a tela do computador. Nada. Aquilo era pobre e incerto. Queria vomitar melancolias e alegrias, mas o prazo para entregar a reportagem sobre a má qualidade dos transportes públicos de São Paulo não permitia que seus anseios fossem atendidos. Estava sufocado em seu pequeno mundo de cronogramas, horários, tarefas, contas e dúvidas sobre o significado das relações com as pessoas de seu cotidiano. Concluiu que seu trabalho, teoricamente, era passar ao mundo dados úteis e fatos coerentes. No entanto, na verdade, o produto final era a opinião de uma empresa da informação. Questionou a definição de útil. Sua cabeça latejava.
Chutou a cadeira e entornou um grande gole de vinho. Miles Davis gritava com seu trompete no toca discos. O jovem escritor desligou o som, pegou as chaves de casa e saiu para as ruas. Queria respirar, queria fugir. O mundo corria atrás dele.
Seu andar ávido era sinal de que procurava algo. Sim, ele procurava sua origem. Essa palavra martelava seus pensamentos. Indagava a origem de tudo que passava pela sua mente: Crenças, costumes, amizades, relacionamentos, idéias. Estava obcecado com aquilo.
Tomou o metrô em direção a estação Anhangabaú. Chegando nas ruas repletas de botecos, luzes amareladas, escuridão, sons da movimentação e prédios de fachada gasta, andarilhou até a escadaria do Teatro Municipal e lá sentou-se, sempre com a garrafa na mão.
Minutos. "O que é tempo? É sucessão? Sim, só pode ser isso..."
Mais alguns goles. Os postes pareciam dançar em sua súbita pane mental. Ziguezagueando, dirigiu-se ao Café Girondino. Sentou-se e pediu uma cerveja. Alguns minutos depois do primeiro gole, seu camarada Simplício entrou e o avistou. Simplício fazia parte de um trio de música instrumental que rodava pelos clubes "cool" da cidade.
-Bodhisatva, como anda a escrita? - perguntou o músico.
-Na crista das sensações do real. - respondeu Cervello (este era seu sobrenome de família). -Gostaria de abrir uma gaveta repleta de palavras novas para escrever tudo que desejo.
-É por isso que me comunico pelas notas, meu caro amigo. Elas permitem tudo. - disse Simplício. -Garçom! Uma cerveja!
As vozes exaltadas dos indivíduos recém saídos do expediente ecoavam pelo Café, enquanto que garçons circulavam incessantemente pelos espaços entre as mesas.
Os dois camaradas discutiam Sartre:
-Experiência é essência? - perguntou Cervello. -Queria entender o que realmente se passava na cabeça deste parisiense.
-Libertação pela arte, jovem. E tenho dito! - respondeu Simplício.
-Hemingway é quem sabia das coisas. Brutalidade e violência são os marcos da história da humanidade.
-Caralho cara, não sei. O que sei é que o filho da puta escrevia demais. E era mulherengo e bebia o tempo todo. Viva o álcool! - Após essa frase, o músico entornou o último gole de sua cerveja.
Pagaram a conta e saíram pela noite para explorar o ar da cidade. O fluxo das coisas parece diferente quando se conversa caminhando.
Cruzaram o vale do Anhangabaú e subiram até o Viaduto do Chá. Dirigiram-se ao café do Centro Cultural Banco do Brasil e lá se alojaram.
Debateram pormenores e futilidades. Afinal, o que é o ordinário além de preocupações e tentativas de superá-las? Como de costume, não chegaram a conclusão nenhuma, a não ser a exclamação de alguns palavrões.
-Kerouac disse que a vida é como uma trilha. Andamos, suamos e sofremos para chegar em algum lugar. Quando atingimos o objetivo, aproveitamos intensamente as sensações que ele proporciona, mas logo temos que caminhar novamente para chegarmos em outro lugar ou simplesmente voltarmos ao ponto de partida. - disse Cervello.
-Isso é lindo, cara! É absurdo! O cara simplesmente saiu por aí, sem mais nem menos. Mochila nas costas e pronto. - respondeu Simplício.
Saíram do café para mais uma volta pela noite. Andavam lado a lado, passadas similares. Cervello fundia a cabeça com questionamentos e preocupações, enquanto Simplício focava os rostos das pessoas, a música da cidade e a leveza do ar.
-Estou preocupado. - disse o escritor. -Tenho que entregar uma matéria amanhã. Além do mais, esse trabalho de merda não me dá tempo para pensar no meu livro.
-O seu problema é que você pensa demais! - respondeu seu camarada. -Desencana, porra!!! Vamos sair por aí e encher a cara. - completou.
Andarilharam pelo centro. Entraram em um mercadinho e compraram uma garrafa de vinho. Enquanto procuravam um clube para dançar com algumas mulheres, bebiam e falavam sem parar.
Depois de passarem pela Praça Roosevelt, subiram boa parte da Rua Augusta a pé até encontrarem o Clube Sarajevo.
Entraram e tomaram algumas cervejas. Na pista, tocava um soul com batida eletrônica, que os animou. Completamente bêbados, dançaram abraçados no meio de todas as pessoas. Sensações: felicidade extrema e a vivência eufórica do momento se mesclavam com preocupações e racionalizações.
Cervello sentou-se no banco do bar, enquanto Simplício cortejava uma bela morena que também dançava. O músico falava naturalmente, agradando a moça. Nesse meio tempo, o escritor criava coragem para falar com a amiga da moça. Raciocinava e delimitava tudo que teria que falar.
Alguns minutos depois, Simplício veio de encontro ao amigo:
-Cara, estou indo nessa. Esta bela morena quer aprofundar a conversa em um lugar mais calmo. A amiga dela vai ficar por aí mais um tempo. Aproveite! Você está bem para voltar para casa depois?
-Tranquilo, rapaz. Vá. Daqui um tempo, quando eu estiver mais sóbrio, voltarei para casa. -respondeu Cervello.
-Beleza, cara. Divirta-se e até mais.
Abraçaram-se e Simplício abandonou a casa noturna.
Incapaz de criar coragem para falar com a amiga da moça, Cervello virou uma bela dose de vodka e voltou para casa. No caminho, lamentava sua falta de iniciativa.
Chegando em casa, deitou-se e dormiu profundamente. Na manhã seguinte, uma ressaca intensa o dominava. Mais uma vez encontrava-se dividido: uma parte sua pouco se importava com o que tinha acontecido, enquanto a outra questionava e buscava lembranças concretas dos acontecimentos da noite anterior.
Socou a mesa e levantou-se. Dirigiu-se à cozinha, em busca de algo para molhar a garganta e que talvez lhe desse alguma inspiração. Com uma garrafa de vinho na mão, andou até a janela e debruçou-se no parapeito, observando luzes e vivências. Um cheiro fresco penetrou em seu ser, juntamente com o barulho das vibrações da cidade. A escuridão repleta de focos de existência lhe trazia serenidade. Cogitou o que é um sentido e supôs que a essência depende do observador.
Sentou-se novamente e focou a tela do computador. Nada. Aquilo era pobre e incerto. Queria vomitar melancolias e alegrias, mas o prazo para entregar a reportagem sobre a má qualidade dos transportes públicos de São Paulo não permitia que seus anseios fossem atendidos. Estava sufocado em seu pequeno mundo de cronogramas, horários, tarefas, contas e dúvidas sobre o significado das relações com as pessoas de seu cotidiano. Concluiu que seu trabalho, teoricamente, era passar ao mundo dados úteis e fatos coerentes. No entanto, na verdade, o produto final era a opinião de uma empresa da informação. Questionou a definição de útil. Sua cabeça latejava.
Chutou a cadeira e entornou um grande gole de vinho. Miles Davis gritava com seu trompete no toca discos. O jovem escritor desligou o som, pegou as chaves de casa e saiu para as ruas. Queria respirar, queria fugir. O mundo corria atrás dele.
Seu andar ávido era sinal de que procurava algo. Sim, ele procurava sua origem. Essa palavra martelava seus pensamentos. Indagava a origem de tudo que passava pela sua mente: Crenças, costumes, amizades, relacionamentos, idéias. Estava obcecado com aquilo.
Tomou o metrô em direção a estação Anhangabaú. Chegando nas ruas repletas de botecos, luzes amareladas, escuridão, sons da movimentação e prédios de fachada gasta, andarilhou até a escadaria do Teatro Municipal e lá sentou-se, sempre com a garrafa na mão.
Minutos. "O que é tempo? É sucessão? Sim, só pode ser isso..."
Mais alguns goles. Os postes pareciam dançar em sua súbita pane mental. Ziguezagueando, dirigiu-se ao Café Girondino. Sentou-se e pediu uma cerveja. Alguns minutos depois do primeiro gole, seu camarada Simplício entrou e o avistou. Simplício fazia parte de um trio de música instrumental que rodava pelos clubes "cool" da cidade.
-Bodhisatva, como anda a escrita? - perguntou o músico.
-Na crista das sensações do real. - respondeu Cervello (este era seu sobrenome de família). -Gostaria de abrir uma gaveta repleta de palavras novas para escrever tudo que desejo.
-É por isso que me comunico pelas notas, meu caro amigo. Elas permitem tudo. - disse Simplício. -Garçom! Uma cerveja!
As vozes exaltadas dos indivíduos recém saídos do expediente ecoavam pelo Café, enquanto que garçons circulavam incessantemente pelos espaços entre as mesas.
Os dois camaradas discutiam Sartre:
-Experiência é essência? - perguntou Cervello. -Queria entender o que realmente se passava na cabeça deste parisiense.
-Libertação pela arte, jovem. E tenho dito! - respondeu Simplício.
-Hemingway é quem sabia das coisas. Brutalidade e violência são os marcos da história da humanidade.
-Caralho cara, não sei. O que sei é que o filho da puta escrevia demais. E era mulherengo e bebia o tempo todo. Viva o álcool! - Após essa frase, o músico entornou o último gole de sua cerveja.
Pagaram a conta e saíram pela noite para explorar o ar da cidade. O fluxo das coisas parece diferente quando se conversa caminhando.
Cruzaram o vale do Anhangabaú e subiram até o Viaduto do Chá. Dirigiram-se ao café do Centro Cultural Banco do Brasil e lá se alojaram.
Debateram pormenores e futilidades. Afinal, o que é o ordinário além de preocupações e tentativas de superá-las? Como de costume, não chegaram a conclusão nenhuma, a não ser a exclamação de alguns palavrões.
-Kerouac disse que a vida é como uma trilha. Andamos, suamos e sofremos para chegar em algum lugar. Quando atingimos o objetivo, aproveitamos intensamente as sensações que ele proporciona, mas logo temos que caminhar novamente para chegarmos em outro lugar ou simplesmente voltarmos ao ponto de partida. - disse Cervello.
-Isso é lindo, cara! É absurdo! O cara simplesmente saiu por aí, sem mais nem menos. Mochila nas costas e pronto. - respondeu Simplício.
Saíram do café para mais uma volta pela noite. Andavam lado a lado, passadas similares. Cervello fundia a cabeça com questionamentos e preocupações, enquanto Simplício focava os rostos das pessoas, a música da cidade e a leveza do ar.
-Estou preocupado. - disse o escritor. -Tenho que entregar uma matéria amanhã. Além do mais, esse trabalho de merda não me dá tempo para pensar no meu livro.
-O seu problema é que você pensa demais! - respondeu seu camarada. -Desencana, porra!!! Vamos sair por aí e encher a cara. - completou.
Andarilharam pelo centro. Entraram em um mercadinho e compraram uma garrafa de vinho. Enquanto procuravam um clube para dançar com algumas mulheres, bebiam e falavam sem parar.
Depois de passarem pela Praça Roosevelt, subiram boa parte da Rua Augusta a pé até encontrarem o Clube Sarajevo.
Entraram e tomaram algumas cervejas. Na pista, tocava um soul com batida eletrônica, que os animou. Completamente bêbados, dançaram abraçados no meio de todas as pessoas. Sensações: felicidade extrema e a vivência eufórica do momento se mesclavam com preocupações e racionalizações.
Cervello sentou-se no banco do bar, enquanto Simplício cortejava uma bela morena que também dançava. O músico falava naturalmente, agradando a moça. Nesse meio tempo, o escritor criava coragem para falar com a amiga da moça. Raciocinava e delimitava tudo que teria que falar.
Alguns minutos depois, Simplício veio de encontro ao amigo:
-Cara, estou indo nessa. Esta bela morena quer aprofundar a conversa em um lugar mais calmo. A amiga dela vai ficar por aí mais um tempo. Aproveite! Você está bem para voltar para casa depois?
-Tranquilo, rapaz. Vá. Daqui um tempo, quando eu estiver mais sóbrio, voltarei para casa. -respondeu Cervello.
-Beleza, cara. Divirta-se e até mais.
Abraçaram-se e Simplício abandonou a casa noturna.
Incapaz de criar coragem para falar com a amiga da moça, Cervello virou uma bela dose de vodka e voltou para casa. No caminho, lamentava sua falta de iniciativa.
Chegando em casa, deitou-se e dormiu profundamente. Na manhã seguinte, uma ressaca intensa o dominava. Mais uma vez encontrava-se dividido: uma parte sua pouco se importava com o que tinha acontecido, enquanto a outra questionava e buscava lembranças concretas dos acontecimentos da noite anterior.
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