sexta-feira, 17 de outubro de 2008

"Bitches Brew" de Miles Davis: A dança dos Faraós

Inquietação. Uma boa palavra para Miles Davis.


Este semeador do processo criativo percorreu sua vida musical pela rota da inquietação. Aderindo e rompendo com linhas estilísticas por todo esse caminho, Miles produziu preciosidades instrumentais e um nível de consciência artística extraordinário e muitas vezes incompreendido pela sociedade não ciente do confronto e da movimentação. É, pura e simplesmente, um homem de vanguarda, que por todas as vertentes do jazz pelas quais passou, desde o bebop, passando pelo cool e chegando ao fusion, contribuiu com tudo que podia até um momento de ruptura e assimilação de uma nova realidade.


O desenvolvimento artístico deste rapaz de St. Louis passou por uma longa caminhada de incorporação de diversos elementos musicais, um movimento dialético que o transformou em um verdadeiro maestro e incomparável garimpador de gênios do jazz. Miles angariou boa parte dos grandes talentos da música instrumental para tocar com ele em suas muitas bandas, revelando nomes como Tony Williams, Herbie Hancock e outros. Músicos que se tornariam todos expoentes da década de 70 com suas próprias idéias, mas sempre tendo como referência o processo construído juntamente com o trompetista.


A genialidade atingiu uma apoteose em 1969, com o lançamento do disco duplo "Bitches Brew". Construído por uma banda de músicos fenomenais, o álbum surgiu como uma das maiores inovações da história do jazz, especialmente por produzir o som com duas baterias, dois baixos (um acústico e um elétrico), congas, percussão diversa, cuicas, guitarra, sopros, órgão, dois pianos elétricos e lógico, o trompete de Miles. Representa um acumulado repleto de cenas, violência, amor, criação, pessoas e coletivo.


Logo no início os instrumentos conversam: baterias e baixos na retaguarda, enquanto teclados e órgão interagem com a guitarra do inspirado John McLaughlin, mesclando frases. De fundo, um grave poderoso, com Bennie Maupin tocando um "Bass clarinet". Conforme o andamento da música, percebemos que todos da banda parecem seguir seus instintos comunicativos e a sessão flui continuamente como uma festa. A entrada do improviso de Miles é colossal, um agudo que se assemelha a um grito por liberdade de todos os padrões existentes no jazz: o encaixe das notas, vibratos e fraseados com a cozinha (baixos e baterias) e os teclados é simplesmente perfeito.


Logo em seguida, enquanto os bateristas Jack DeJohnette e Lenny White e os baixistas Dave Holland e Harvey Brooks seguram o groove, Maupin começa seu solo nos graves, quebrando o som agudo e estridente de Miles. McLaughlin fraseia continua e virtuosamente no fundo, enquanto a percussão de Don Alias e Jumma Santos fornece um ritmo africano ao andamento.


O começo do disco é como uma vibração que baixou sobre os músicos e os levou na empreitada do improviso, proporcionando um verdadeiro debate. Os solos de Miles apresentam-se com uma sensibilidade incrível, e a capacidade de fazer uma combinação de notas encaixadas em um contexto que necessita delas. No sax soprano, Wayne Shorter faz solos desconcertantes, que progridem do grave ao agudo em alguns segundos, proporcionando um sobe e desce no fraseado.


A grande sabedoria de solar está em como trabalhar com os silêncios, como configurá-los com os sons diversos. E é através do domínio desta técnica que "Bitches Brew" figura como uma obra prima.


A banda está a todo vapor, e a música toma uma proporção que parece indicar que tudo caminha sozinho em um outro plano de entendimento. Acordes soltos e distorcidos de guitarra pulam frente aos ouvidos. As duas baterias e os dois baixos proporcionam combinações e encaixes, e os teclados (Joe Zawinul, Chick Corea e Larry Young) completam o serviço de "carregar" a música em uma interação fabulosa, que enxerga "brechas" onde podem ser colocados acordes e notas. Metais e congas aparecem aos poucos, agregando-se ao amontoado da levada musical. A composição possibilita o aguçamento perceptivo: a diversidade de instrumentos é enorme, e no entanto nos permite enxergá-los todos em suas funções específicas.


Os tempos do disco são peculiares e a variedade de sons faz enxergar cores. A interação entre graves (baixos e bass clarinet) é perfeita, juntamente com o surgimento de McLaughlin através de seus acordes dispersos, "ghost notes" e frases virtuosas e o entedimento magnífico entre DeJohnette e White. Miles é o cume da composição: quando tudo caminha tranquilo, ele entra, parecendo alguém falando alto em uma conversa de bar e dando argumentos excelentes que fazem todos prestarem atenção.


O grande trunfo do disco é a conexão. Todos estão cientes do que está acontecendo e se ouvirmos atentamente, percebemos a voz de Miles ao fundo no estúdio aparecendo as vezes para reger a grande sinfonia da improvisação. É esta sensibilidade extrema que dá a noção a todos de quando devem tocar mais alto ou mais baixo, um "feeling" que parece atingir a banda inteira ao mesmo tempo e igualmente, difundindo a sensação de quando devem diminuir a pegada para deixar o solista se expressar, falar suas idéias. Chegamos então na expressão que resume "Bitches Brew": sincronicidade das almas. Os eventuais retornos ao tema da música quebram o andamento e a sincronia da improvisação, e a partir disso nasce um outro desenvolvimento de combinações, com novas possibilidades construtivas. É uma energia musical que promove o entendimento.


Miles Davis age como um mago que aponta para os instrumentistas e indica o que devem fazer, como e quando. Dessa maneira, ele promove o andamento ideal para que seus solos quebrem qualquer expectativa, preconceito e idéias passadas.


Através deste encontro único da improvisação jazzistica com a música elétrica, surge uma mescla de sonoridades diversas e um corpo musical consistente, mas que também quebra todos os padrões que já haviam existido. Trata-se, realmente, de algo singular, uma música que se retroalimenta, fornece as bases de seu desenvolvimento no decorrer do próprio desenvolvimento.


"Bitches Brew" representa a junção da importância do solista com a importância do conjunto, provando que o todo não é a soma das partes. O disco não é uma soma de faixas, é uma obra. Existe uma vibração maior que entra no processo, puxando as funções de cada músico e ligando-as, proporcionando uma apoteose de sons. O som é um túnel sem fim, uma caminhada sem paradas, um círculo psicodélico de cores e estímulos sinestésicos: você flutua por esse túnel, despreocupado com começo e fim, pois esta música te faz entender a noção de processo e de como coisas (solos, frases, batidas, etc.) nascem, morrem e se recombinam em um andamento perpétuo enquanto dura. Trata-se de uma obra dedicada ao caos da existência humana com seus eventuais padrões, possibilitando surpresas e a quebra da rotina.


Miles e sua banda abrem as portas da percepção para produzir este álbum, conversando com seus sonhos no decorrer da música e permitindo a manifestação de seus subconscientes. De todos os lados percebemos estímulos auditivos intensos, com as vozes dos instrumentos saltando, e a criação de "moods" nunca antes experimentados, em uma (con)fusão de ritmos diversos: jazz, rock, a batida característica da música negra e a percussão de origem africana.


Temos discos estupendos nas fases pré e pós "Bitches Brew", como "Filles de Kilimanjaro", "In a Silent Way", "Miles in the Sky", "Kind of Blue", "Live Evil" e "A Tribute to Jack Johnson", mas que não tem a mesma propriedade. A obra figura como o grande expoente da genialidade de um mestre em toda a sua carreira. É, por definição, uma viagem sensorial.


"Bitches Brew" (1969)

Disco 1:
1-Pharaoh's Dance 20:05
2-Bitches Brew 26:58

Disco 2:
1-Spanish Key 17:32
2-John McLaughlin 4:22
3-Miles Runs The Voodoo Down 14:01
4-Sanctuary 10:56
5-Feio 11:49

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Noite

A noite na cidade proporciona uma assimilação diferente da realidade que nos cerca. Nossos sentidos parecem cercados por uma atmosfera nebulosa, uma sombra constante que incita a dúvida e transforma a percepção em fonte de serenidade e questionamentos.
Parece paradoxal dizer isso, mas estes são processos paralelos desencadeados pelo ambiente noturno.

A claridade do dia parece nos passar algum tipo de certeza, e nossa experiência aparenta dinâmica. A noite, por sua vez, é algo difuso mas também tranquilizador. É um mar de incertezas, mas que nos assegura a essência de nossos sentidos. Basta observar calmamente pela janela durante uma madrugada, para constatar que a escuridão repleta de luzes artificiais tem cheiro, coisa que o dia não tem. Um cheiro fresco e agradável, seja em uma noite de verão ou em uma noite de inverno.

O encontro do rosto com o ar úmido liberta e embebeda, de forma que planamos pela existência e fugimos da materialidade que nos cerca.

A noite na cidade demonstra aquele que é o princípio da existência: o fluxo contínuo de processos. Processos que exalam vida, questionamentos, sofrimento e prazer.

O ambiente noturno cosmopolita proporciona a descoberta da essência de cada um através da experiência que está sendo vivenciada. A escuridão proporciona um ambiente acolhedor para podermos expressar nosso "eu", e é o momento em que somos tomados por questionamentos e por um desejo de pacificação do espírito. É, por assim dizer, o momento em que nos identificamos como seres humanos, pois é o instante em que as sombras e dúvidas da razão estão estampadas no ambiente externo a nós, algo como um espelho do andamento de nossa alma.

A arte faz mais sentido a noite, assim como as luzes e todas as construções humanas. Percebemos a enormidade da humanidade andando de mãos dadas com os seus aspectos mais animalescos e imundos. Isso tudo circula pela sombra da noite, disponível para o observador atento.

Nada é mais gratificante do que observar o anoitecer de uma cidade movimentada marchando frente aos seus sentidos: o aparecimento das luzes, a pressa das pessoas, os risos, o cansaço, os questionamentos, a alegria e as vozes. Enfim, a vida.

Todo anoitecer representa o renascimento da natureza humana.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Conflito

Digitava sem parar. Porém, as palavras pareciam sem sentido algum. Naquele momento representavam apenas uma junção confusa de letras.

Socou a mesa e levantou-se. Dirigiu-se à cozinha, em busca de algo para molhar a garganta e que talvez lhe desse alguma inspiração. Com uma garrafa de vinho na mão, andou até a janela e debruçou-se no parapeito, observando luzes e vivências. Um cheiro fresco penetrou em seu ser, juntamente com o barulho das vibrações da cidade. A escuridão repleta de focos de existência lhe trazia serenidade. Cogitou o que é um sentido e supôs que a essência depende do observador.

Sentou-se novamente e focou a tela do computador. Nada. Aquilo era pobre e incerto. Queria vomitar melancolias e alegrias, mas o prazo para entregar a reportagem sobre a má qualidade dos transportes públicos de São Paulo não permitia que seus anseios fossem atendidos. Estava sufocado em seu pequeno mundo de cronogramas, horários, tarefas, contas e dúvidas sobre o significado das relações com as pessoas de seu cotidiano. Concluiu que seu trabalho, teoricamente, era passar ao mundo dados úteis e fatos coerentes. No entanto, na verdade, o produto final era a opinião de uma empresa da informação. Questionou a definição de útil. Sua cabeça latejava.

Chutou a cadeira e entornou um grande gole de vinho. Miles Davis gritava com seu trompete no toca discos. O jovem escritor desligou o som, pegou as chaves de casa e saiu para as ruas. Queria respirar, queria fugir. O mundo corria atrás dele.

Seu andar ávido era sinal de que procurava algo. Sim, ele procurava sua origem. Essa palavra martelava seus pensamentos. Indagava a origem de tudo que passava pela sua mente: Crenças, costumes, amizades, relacionamentos, idéias. Estava obcecado com aquilo.

Tomou o metrô em direção a estação Anhangabaú. Chegando nas ruas repletas de botecos, luzes amareladas, escuridão, sons da movimentação e prédios de fachada gasta, andarilhou até a escadaria do Teatro Municipal e lá sentou-se, sempre com a garrafa na mão.

Minutos. "O que é tempo? É sucessão? Sim, só pode ser isso..."

Mais alguns goles. Os postes pareciam dançar em sua súbita pane mental. Ziguezagueando, dirigiu-se ao Café Girondino. Sentou-se e pediu uma cerveja. Alguns minutos depois do primeiro gole, seu camarada Simplício entrou e o avistou. Simplício fazia parte de um trio de música instrumental que rodava pelos clubes "cool" da cidade.

-Bodhisatva, como anda a escrita? - perguntou o músico.

-Na crista das sensações do real. - respondeu Cervello (este era seu sobrenome de família). -Gostaria de abrir uma gaveta repleta de palavras novas para escrever tudo que desejo.

-É por isso que me comunico pelas notas, meu caro amigo. Elas permitem tudo. - disse Simplício. -Garçom! Uma cerveja!

As vozes exaltadas dos indivíduos recém saídos do expediente ecoavam pelo Café, enquanto que garçons circulavam incessantemente pelos espaços entre as mesas.

Os dois camaradas discutiam Sartre:

-Experiência é essência? - perguntou Cervello. -Queria entender o que realmente se passava na cabeça deste parisiense.

-Libertação pela arte, jovem. E tenho dito! - respondeu Simplício.

-Hemingway é quem sabia das coisas. Brutalidade e violência são os marcos da história da humanidade.

-Caralho cara, não sei. O que sei é que o filho da puta escrevia demais. E era mulherengo e bebia o tempo todo. Viva o álcool! - Após essa frase, o músico entornou o último gole de sua cerveja.

Pagaram a conta e saíram pela noite para explorar o ar da cidade. O fluxo das coisas parece diferente quando se conversa caminhando.

Cruzaram o vale do Anhangabaú e subiram até o Viaduto do Chá. Dirigiram-se ao café do Centro Cultural Banco do Brasil e lá se alojaram.

Debateram pormenores e futilidades. Afinal, o que é o ordinário além de preocupações e tentativas de superá-las? Como de costume, não chegaram a conclusão nenhuma, a não ser a exclamação de alguns palavrões.

-Kerouac disse que a vida é como uma trilha. Andamos, suamos e sofremos para chegar em algum lugar. Quando atingimos o objetivo, aproveitamos intensamente as sensações que ele proporciona, mas logo temos que caminhar novamente para chegarmos em outro lugar ou simplesmente voltarmos ao ponto de partida. - disse Cervello.

-Isso é lindo, cara! É absurdo! O cara simplesmente saiu por aí, sem mais nem menos. Mochila nas costas e pronto. - respondeu Simplício.

Saíram do café para mais uma volta pela noite. Andavam lado a lado, passadas similares. Cervello fundia a cabeça com questionamentos e preocupações, enquanto Simplício focava os rostos das pessoas, a música da cidade e a leveza do ar.

-Estou preocupado. - disse o escritor. -Tenho que entregar uma matéria amanhã. Além do mais, esse trabalho de merda não me dá tempo para pensar no meu livro.

-O seu problema é que você pensa demais! - respondeu seu camarada. -Desencana, porra!!! Vamos sair por aí e encher a cara. - completou.

Andarilharam pelo centro. Entraram em um mercadinho e compraram uma garrafa de vinho. Enquanto procuravam um clube para dançar com algumas mulheres, bebiam e falavam sem parar.

Depois de passarem pela Praça Roosevelt, subiram boa parte da Rua Augusta a pé até encontrarem o Clube Sarajevo.

Entraram e tomaram algumas cervejas. Na pista, tocava um soul com batida eletrônica, que os animou. Completamente bêbados, dançaram abraçados no meio de todas as pessoas. Sensações: felicidade extrema e a vivência eufórica do momento se mesclavam com preocupações e racionalizações.

Cervello sentou-se no banco do bar, enquanto Simplício cortejava uma bela morena que também dançava. O músico falava naturalmente, agradando a moça. Nesse meio tempo, o escritor criava coragem para falar com a amiga da moça. Raciocinava e delimitava tudo que teria que falar.

Alguns minutos depois, Simplício veio de encontro ao amigo:

-Cara, estou indo nessa. Esta bela morena quer aprofundar a conversa em um lugar mais calmo. A amiga dela vai ficar por aí mais um tempo. Aproveite! Você está bem para voltar para casa depois?

-Tranquilo, rapaz. Vá. Daqui um tempo, quando eu estiver mais sóbrio, voltarei para casa. -respondeu Cervello.

-Beleza, cara. Divirta-se e até mais.

Abraçaram-se e Simplício abandonou a casa noturna.

Incapaz de criar coragem para falar com a amiga da moça, Cervello virou uma bela dose de vodka e voltou para casa. No caminho, lamentava sua falta de iniciativa.

Chegando em casa, deitou-se e dormiu profundamente. Na manhã seguinte, uma ressaca intensa o dominava. Mais uma vez encontrava-se dividido: uma parte sua pouco se importava com o que tinha acontecido, enquanto a outra questionava e buscava lembranças concretas dos acontecimentos da noite anterior.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Na Terra de Gaudí - Parte 2

Descansados após algumas belas horas de sono, nos direcionamos ao primeiro ponto do dia: o Mirador de Colombo, localizado em uma praça circular no final das Ramblas. Além da estátua de Colombo, o mirador é repleto de detalhes arquitetônicos e esculturas em toda sua volta. Seu grande atributo, porém, está na vista que proporciona de toda a cidade e do mar. No topo da estrutura, uma sacada circular oferece aos seus olhos uma visão de Barcelona em 360°. Avistamos primeiro a praia, com a Vila Olímpica e o porto cheio de barcos de luxo. O mar tem uma coloração única, esverdeada, e seu encontro com o céu azul profundo e sem nuvens faz um misto de cores incrível.

Dando a volta aos poucos no mirador, focamos o olhar nas avenidas próximas a praia, com suas palmeiras formando corrredores, enquanto o amontoado urbano vai se tornando cada vez mais vigoroso. Aos poucos vamos encontrando os grandes pontos arquitetônicos da cidade: a catedral de Barcelona, a Sagrada Família de Gaudí, a Torre Agbar, etc. Em seguida, avistamos Montjuic, o bairro localizado em cima de uma montanha.

Saindo do mirador, pegamos o metrô e nos dirigimos a Santa Maria Del Mar, uma igreja imponente, porém localizada em meio a diversas ruinhas, sem um grande espaço livre pelos seus lados. Na porta da construção religiosa, um jovem tomava sol com uma garrafa de vinho na mão. Pelos arredores, diversos becos com pequenos prédios cheios de sacadas acolhedoras, com suas cores quentes, seu tom amarelado e pintura gasta.

No caminho para a Sagrada Família de Gaudí, resolvemos comprar um vinho para mais tarde. Entramos em uma loja especializada, e começamos a conversar com o vendedor. Na pauta, mulheres e futebol. Quando citamos as mulheres brasileiras, o vendedor fez uma expressão espontânea, com caretas de aprovação.

Saímos do metrô e demos de cara com a Sagrada Família. A imponência é extrema. Porém, antes de entrarmos na catedral, descansamos em uma praça na qual circulava uma brisa agradabilíssima e constante. De frente para a obra de Gaudí, apreciamos seus detalhes incessantemente: seus traços arquitetônicos angulosos, sua imensidão de rebuscados e suas esculturas religiosas muito peculiares. Mesmo inacabada, seu interior é prova da singularidade e genialidade do arquiteto catalão. A estrutura das colunas é inspirada no desenho de troncos de árvores e seus galhos. Lindo!

Depois de metrôs, andadas e ônibus, chegamos em Montjuic. As ruas arborizadas, sombreadas e inclinadas do bairro são lindas. Seguimos para a Fundação Juan Miró, repleta de quadros fabulosos do pintor. Entre um andar e outro do museu, uma pausa para um café. Ao final do circuito de obras abstratas, uma sacada no último andar do prédio proporciona uma belíssima vista de Barcelona com o sol descendo aos poucos.

O verão europeu é um fator ótimo para conhecer as cidades. Os dias ficam extremamente longos, e por volta de 10 da noite o sol ainda lança uma pequena fresta no céu. Sendo assim, saímos da Fundação Juan Miró por volta de 7 da noite, e o sol estava quente como se fosse 4 horas da tarde. Pegamos um ônibus lotado de gente para retornarmos a região das Ramblas. Nesse caminho, passamos por belas avenidas e pela Universidade de Barcelona. Chegando em nosso ponto, descemos e jantamos. Nos dirigimos as Ramblas para uma voltinha, e nossos olhos captaram uma imagem incrível: uma gari linda e vistosa varria as ruas da cidade.

De volta ao albergue, depois de um banho, fizemos um esquenta com o vinho comprado anteriormente. Saímos pelas ruas em busca de um clube de jazz, com a garrafa de vinho na mão. Fomos informados por um irlandês com sotaque carregadíssimo de que um lugar chamado Harlem Jazz oferecia música de qualidade. Chegando lá, uma banda de pop blues fazia um som agradável porém que decepcionou nossos ouvidos sedentos por jazz. Após algumas cervejas, completamente bêbados, decidimos deixar o clube e andar pela cidade em busca de algo. Novamente, rumamos para as Ramblas, lotada de gente. Embriagados, andamos e andamos sem fim, visualizando as pessoas e a arquitetura da cidade no período noturno. Empregados da prefeitura lavavam as ruas e os monumentos, por volta de 4 horas da madrugada. Cansados, sentamos em uma praça e quase adormecemos nos bancos. Retornamos ao albergue, onde comemos algumas frutas compradas na Boquería e dormimos profundamente.

No dia seguinte, após um almoço de sanduíches naturais, nos dirigimos novamente para Montjuic, dessa vez para visitarmos o gigantesco e belíssimo Museu de Arte de Catalunha. No metrô que sobe o morro, denominado funicular, conhecemos um brasileiro muito simpático, chamado Zé Luís, também viajando por Barcelona. Fizemos o percurso inteiro do museu com nosso novo camarada, e após apreciarmos o acervo, sentamos nas mesinhas do terraço e conversamos sobre diversos assuntos, sempre com um agradável ventinho no rosto.

Após sair do museu, andamos por Montjuic discutindo planos futuros de viagens. Pegamos o metrô e nos dirigimos ao Parque Guell de Gaudí.

Para chegar no parque, uma subida muito inclinada encontrava-se no caminho. Porém, esta é realizada, sem nenhum problema, através de escadas rolantes. Chegando no local, andamos incessantemente pela reserva florestal até encontrarmos a praça de Gaudí, enorme, com um terreno de areia, circundada por pedras e bancos com detalhes em mosaicos coloridos e que possibilita uma vista linda da cidade e do restante do parque. Descemos uma escadaria enorme, de pedras angulosas e demos na Casa de Gaudí, cheia de detalhes e cores incomuns, e com um desenho muito diferente. Impressionante a quantidade de mulheres bonitas circulando pelo parque. Saindo da casa, encontramos um espaço com uma estátua de um lagarto de mosaico, inteiro colorido, e que dava em um local cheio de colunas.

Retornamos de ônibus para a região das Ramblas. Lá, fizemos um jantar de despedida de Barcelona, com Paella e Sangria. Muito bons!

De volta ao albergue, tomamos algumas cervejas Foster's no lounge, enquanto conversávamos com a galera. Depois, fomos ao quarto e arrumamos nossas malas para partir na manhã seguinte rumo a Paris.

Barcelona é viva, única, colorida, cosmopolita, vibrante, singular, peculiar e transpira beleza, juventude, modernidade e história ao mesmo tempo.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Na Terra de Gaudí - Parte 1

Barcelona exala cores por todos os seus cantos. Cores vibrantes, que a todo tempo aguçam a sua percepção.

A chegada no aeroporto da cidade já figura como um momento singular. Descendo do avião, entramos em contato com um calor em todos os níveis sensoriais, um calor único e que nos mostra que estamos em um local que trabalha em vibrações totalmente diferentes daquelas com as quais estamos acostumados aqui em São Paulo.

Na passagem pela imigração, um fato peculiar: os policiais responsáveis pelo controle da entrada das pessoas conversam entre si, soltando exclamações a cada mulher bonita e vistosa que passa por eles.

O metrô que nos leva do aeroporto até a cidade transcorre suavemente pelos trilhos, e pelas suas janelas avistamos o subúrbio da cidade, lotado de prédios amarelados e gastos, com varandas repletas de roupas e varais.

Ao sairmos na estação próxima de nosso albergue, localizado na região central de Barcelona, damos de cara com a dinâmica da cidade, que trabalha a todo vapor. Respirando o ar cosmopolita, avistamos a arquitetura belíssima, os táxis pretos e amarelos, as pessoas com expressões quentes e vibrantes falando diversas línguas, e todos os detalhes da configuração urbana. O almoço sentado em uma mesa na calçada possibilita uma imagem singular de toda a movimentação e do trânsito.

Após uma ciesta, seguindo o exemplo dos catalães, caminhamos pelas ruas e avenidas. Depois de cruzar a belíssima Plaza de Catalunya, entramos na fabulosa Avenida Las Ramblas, repleta de estímulos sensoriais. Sua configuração é meio ao estilo Boulevard, com árvores que fazem um caminho sem fim. Um fluxo contínuo e grandioso de pessoas vem de encontro a nós: gente de todo o mundo circula pelo calçadão, conversando, gritando e gesticulando; "Guapas" fluem incessantemente, agradando nosso olhar a cada minuto; artistas de rua, um em seguida do outro, fazem suas performances; homens segurando engradados de cerveja vendem as latinhas, além de, cuidadosamente, oferecerem haxixe a todos que passam por eles.

As vielas localizadas dos lados das Ramblas são tão intensas quanto a avenida. Pessoas passam por ali sem parar, enquanto outras sentam-se nos bares que oferecem sangria e "tapas" e nos pubs ao estilo irlandês.

Ao longo dessas ruinhas cruzamos a todo tempo com brasileiros, sejam eles turistas ou pessoas que moram em Barcelona. Andando a esmo, damos de cara com o mercado de la Boquería, repleto de frutos do mar, frutas de todos os tipos e feirantes simpáticos e espalhafatosos. Circulando mais um pouco, entramos em uma praça com arquitetura antiguíssima, repleta de palmeiras, restaurantes, bares e baladas.

Após o jantar, por volta de 10 da noite, observamos a chegada da noite, com um céu de um azul profundo, e ainda iluminado de leve pelo sol que se esconde aos poucos. A brisa fresca da noite corta nossos rostos, enquanto andamos rumo as Ramblas e cruzamos a todo tempo com mais "guapas". Um garrafa de vinho na mão nos ajuda, de tempos em tempos, a molhar a garganta, seca pelas constantes exclamações de felicidade e pelas conversas incessantes. Perdidos, pedimos informação a um gari, que prestativamente tira do painel do caminhão de lixo um mapa gigantesco de Barcelona e nos informa as direções necessárias. Entramos em um pub, abafadíssimo e barulhento. Conversamos aos gritos com os bartenders originários das mais diversas partes do mundo, e que nos contam um pouco sobre a mística da cidade e sobre os pontos que devemos conhecer.

Após cervejas e tequilas, deixamos o pub já de madrugada, e circulamos mais uma vez pelas Ramblas. Porém, desta vez, o álcool faz companhia à nossa percepção. Bêbados, encontramos pelas ruas pessoas fazendo street dance, bebendo e conversando. Ao cruzar mais uma vez a Plaza de Catalunya, observamos um grupo de jovens jogando Rugby. No saguão do albergue, bebemos mais uma para encerrar a noite e em seguida nos entregamos de corpo e alma às nossas camas.

No dia seguinte, uma caminhada matinal pela cidade revigora nossas almas. Nos dirigimos à Catedral de Barcelona, que mesmo estando em reformas, surge deslumbrante aos nossos olhos. Seu estilo gótico e rebuscado é fabuloso, assim como seu interior repleto de ouro e as pedras que constituem sua estrutura. Uma senhora catalã nos intercepta dentro da igreja, e começa a nos contar histórias religiosas. Andando um pouco, descobrimos um espaço ao ar livre, com uma fonte repleta de peixes e patos. Ao redor desta, árvores e pessoas circulando por corredores de arquitetura gótica. Pegamos um elevador e nos dirigimos ao topo da catedral. Lá em cima, avistamos Barcelona inteira, suas construções e o mar bem ao fundo.

Em seguida, entramos no Museu da História da Cidade. No acervo, muitas ruínas que datam do período de fundação de Barcelona, além de fragmentos da época da dominação romana. Depois de muito andar, deixamos o museu e sentamos em uma escadaria de pedras angulosas. Matamos o tempo agradando o nosso olhar com as pessoas circulando, a arquitetura e os raios do sol de calor agradável.

Depois do almoço, rumamos ao museu Picasso. Por mais clichê que seja, ver um quadro de Picasso no original é absolutamente fantástico, uma experência única. Além disso, "guapas" desviam nossa atenção a todo momento.

Voltando a pé até o albergue, circulamos pelas ruelas e encontramos personagens peculiares. Conversamos por muito tempo com um velhinho francês, violonista de rua, e que falava português perfeitamente. Em seu repertório, composições de Villa-Lobos.

Próximo a Plaza de Catalunya, um senhor catalão e um turista americano discutem devido a um quase acidente de trânsito. O velho demonstra o orgulho de ser catalão ao soltar frase: "Você está na Catalunha. Aqui não se grita!"

Depois de uma dormida, jantamos e nos preparamos para a noite de Barcelona. Após um "esquenta" com vinho, andamos pelas Ramblas em busca de uma balada. Impressionante a movimentação de pessoas pela madrugada da cidade. Uma vida noturna intensa, que começa tarde e que vai até o sol aparecer.

Entramos em uma balada de música eletrônica. Depois de alguns copos de uísque, nos dirigimos a pista, "pirando" no eletrônico pesado enquanto trocamos idéias com as pessoas. Depois de muito dançar, deixamos a balada e rumamos aos bares da praia. A costa iluminada, a areia e o mar mediterrâneo fazem uma combinação perfeita. Rodamos pela orla e pelos portos, e decidimos sentar em um bar. Um cubano bêbado começa a conversar conosco, falando milhares de frases sem sentido nenhum.

Por volta de 5 da manhã, decidimos retornar ao albergue. Até acharmos a estação de metrô, andamos por uma hora pela belissima madrugada de Barcelona. As Ramblas ainda estão repletas de gente bebendo e conversando.

Chegando no albergue, encerramos a noite com um trago e nos dirigimos ao descanso.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Revisitando a percepção

Introspectivo, desceu do metrô e subiu as escadas em direção ao ar livre da Avenida Paulista. Desde que voltara de uma viagem com seus camaradas ao redor do velho continente, limitava-se a lamentações. Primeiramente por sentir saudades do caminhar ávido e sedento, dos rostos com expressões diversificadas e das colorações e vibrações fabulosas que cada uma das cidades que visitou apresentaram aos seus sentidos. Em segundo lugar, pois percebera que os ambientes de seu cotidiano permaneciam em sua inércia continua. Tudo andava na mesma com seus amigos, seus familiares, seus conhecidos. E sim, os problemas que deixara a deriva, na esperança de que sumissem, encontravam-se intactos e imóveis.

Saiu de casa depois do almoço, rumando ao encontro marcado com seu camarada de viagem. Tomariam um café e colocariam as novidades pós-Europa em dia. Além do mais, seu amigo era músico, e tinha um ensaio agendado na região da Paulista.

Saindo da estação, andarilhou um pouco entre os prédios, cruzando os botecos lotados de gente em horário de almoço e o escadão do prédio da Gazeta, cheio de universitários conversando e matando o tempo. Deu de cara com o MASP e o Parque Trianon, e virou a esquerda na alameda Casa Branca. Desceu pela calçada, olhando os carros parados no farol e os pedestres circulando, em seus jeitos peculiares. Quando avistou a alameda Santos, com seus prédios comerciais de estilo modernoso, seus restaurantes e sua configuração arquitetônica, teve uma epifania grandiosa. Parou e observou detalhadamente o fenômeno urbano que se desenvolvia ao seu redor. Aquela era uma sensação que fora comum durante a viagem inteira, mas tratava-se de algo que não sentia há tempos em sua cidade.

Tinha-se dado conta de como sua percepção mudara radicalmente de uma hora pra outra. Olhou os lados delimitados por grades da reserva de mata atlântica do Trianon, e virando o rosto avistou uma praça que nunca havia tentado seus olhos. As pessoas circulavam tranquilas e outras sentavam-se nos bancos dispostos pelo jardim. Subitamente, tudo começou a lhe fazer um sentido maravilhoso e inexplicável.

Perguntara-se o tempo todo durante a viagem como que os europeus não ficavam estarrecidos todos os dias com os monumentos, praças, museus e pontes de suas cidades. Lembrou-se deste raciocínio e entendeu a razão. Da mesma forma, a sua cidade estava tão intrínseca no seu ser, que não lhe causava tantos arrepios como causava naquele momento de redescoberta da beleza.

Concluiu que a viagem lhe proporcionara algo mais valioso que qualquer tipo de conhecimento da cultura européia. Ela lhe proporcionara uma nova apreciação e entendimento de seu próprio lar. Feliz com isso, continuou seu caminho tranquilamente, pensando que havia percebido como deve se sentir um mochileiro que visita São Paulo.

Depois de algumas quadras, virou a esquerda na rua José Maria Lisboa e seguiu até o cruzamento com a Avenida Nove de Julho. Parou, esperando que o farol de pedestres abrisse para que pudesse atravessar. Enquanto isso, delineou com o olhar o túnel, os corredores e pontos de ônibus e as árvores enfileiradas. A configuração de São Paulo se tornara outra.

Encontrou seu companheiro, e juntos tomaram um café, discutindo os pontos da cidade que um viajante buscaria em sua visita. Citaram o bairro dos Jardins, a vida noturna da Vila Madalena, a arquitetura do centro, o estádio do Pacaembú, o Memorial da América Latina, o parque do Ibirapuera, a ponte da marginal. E ficaram nesse raciocínio por muito tempo.

Chegada a hora do ensaio, despediram-se.

Recomeçou o andarilhar para retornar a sua casa, e relembrou os problemas que deixara e que permaneciam intactos. Na noite anterior, escrevera seus sentimentos mais profundos em um pedaço de papel que entregaria a uma pessoa especial. Situações complicadas que esperavam por uma solução.

Passou em frente ao prédio dela, e entregou na portaria a carta, sem saber o que esperar, mas com a certeza de que era o certo a se fazer.

Retomou seu caminho. Cruzou pela ponte da Rua Cubatão que passa em cima da Avenida 23 de Maio e ali estancou. Avistou o trânsito, a quantidade de carros e luzes e no fundo o Obelisco e o Auditório do Ibirapuera de Niemeyer com o céu de fim de tarde. Ficou ali por um bom tempo agradando o seu olhar com o desenho da metrópole.

Voltou para casa, recoberto de pensamentos confusos, esperanças e uma consciência nova sobre aquilo que queria de sua vida. Ultrapassou a porta do apartamento e foi de encontro ao descanso mental.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Caminhante Noturno

Flutuou pelas ruas, cercado pela vibração envolvente do crepúsculo. Sentiu a brisa suave encontrando-se com seu rosto. Sorriu leve e espontaneamente.

Luzes. Focos de existência que surgiam em seu campo de visão tornavam enigmática a atmosfera a sua volta. A mescla das cores alaranjadas, quase róseas, do anoitecer e das iluminações dos postes, edifícios, semáforos e carros dançava a sua frente. Estímulos sensoriais lhe cercavam: sons, o ar com cheiro de começo de noite, o perfume da grama e das Damas da Noite nos jardins dos prédios.

Passou por um local de muitas lembranças: Tinha presenciado muitas tardes quentes e noites frias naquele espaço. Fora um marco de seu cotidiano por um doce período de tempo de sua vida.

Memórias saltavam desordenadamente na sua cabeça. Muitas delas: Uma viagem noturna de ônibus, com fones de ouvido e mãos dadas suavemente; uma tarde no parque; madrugadas passadas na internet; cócegas; conversas em uma pedra no meio de uma praia; almoços e jantares; voltas de carro; esperas incessantes; músicas; mãos pequenas; uma fuga inesperada; sorrisos; discussões; filmes; uma cama e um puff; danças; mensagens; andarilhagens. E todas lhe causavam uma mistura de felicidade e melancolia que inflava seu peito.

Andava sem parar, envolto em um clima peculiar: as delimitações materiais haviam sido superadas e ele não tinha consciência disso. Apenas adentrava cada vez mais profundo em sua mente. Caçou boas e más lembranças. Ventos calmos, calor agradável e muitas luzes, juntamente com muita esperança que penetrava em seu interior.

Se deu conta da chegada definitiva da noite e dos rostos cansados dos seres a sua volta. Prestou atenção no meio-fio e nas árvores da rua, além de olhar profundamente tanto para o céu quanto para o chão. Os olhos se encheram de lágrimas e a brisa aquecia suas bochechas.

Abriu o portão e subiu a escada rumo ao descanso. Música no ar e um sentimento acolhedor.